Sou eu, hoje
sou eu. Eu e meus dilemas. Eu e minhas verdades. Eu e apenas... Eu. Eu
esperando o dia em que você consiga ler nas minhas meias palavras, tudo isso, essa
imensidão de sentimentos, que se completa nas entrelinhas. Sou eu, aqui,
esperando o dia desse acontecimento fatídico, esperando que meu amor seja
correspondido. Esperando que você veja os parênteses que meus braços abrem para
os seus abraços. Então não direi mais "sou eu", serei eu esperando
seus braços para completar nossos parênteses, nossas linhas particulares desse
nosso texto desigual. Banal. Sentimental. Carnal. Passional. Substancial. Conceitual.
Sem igual. E seremos, apenas seremos na mais profunda simplicidade de
fundirmo-nos. Não direi mais "sou eu", diremos então "somos
nós". Sorriremos com nossos olhos e olharemos mais profundamente cada poro
com nossos lábios, sentiremos cada vez mais forte ao respirar, ouviremos com
cada parte dos nossos corpos e dançaremos ofegantemente no ritmo das batidas
descompassadas, mas perfeitamente alinhadas, sentiremos cheiros com as línguas
e gostos com as narinas. Inebriantemente afundaremos em desejo e é exatamente
aí que renasceremos.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Elaborar a suave dor que mata
E
no silêncio desse quarto a solidão afoga a sombra da minha
tristeza, a saudade corta meus pulsos e o medo aperta meu coração.
Sub existo pelo consciente do vazio que tende a elaborar no nada
aquilo que me falta. E de tanto elaborar isso que sinto é o que me
mata. Elaborar o vazio, escolher ter um coração frio, permanecer
oculta no brio?
Laila Naymaer
Sentir Em Dualidade
Eu
gostaria muito de ter coragem para te dizer algumas coisas, mas já
são dias tão difíceis de olhar nos teus olhos. Fico tentando
disfarçar o que simplesmente acredito que tu está em demasiado cansaço de
desconfiar... Tua pele me mata, cada pontinho dessa constelação do
teu corpo, teu sorriso me amolece inteira, e cada uma das tuas
lágrimas contorce meu corpo músculo a músculo, e quando tu me toca
é com choques que reagem cada uma das mais diversas terminações
nervosas do meu ser. Pode ser que isso mude rápido. Será? Pode esse
teu efeito inebriante passar? Ponde a vontade calmar? Pode esse
desejo passar? Será mesmo possível?
Que
doença. Qualquer música de ritmo um pouco mais envolvente me faz
lembrar tua voz de vítima, quase infantil, quando tenta me convencer
de algo ou quando pede por favor, essa expressão que vem com açúcar
dos teus finos lábios, teu por favor, por favor me faz um pedido
especial. Tu sabes... Confessa que sabes... Por favor.
É insuportável conhecer teu corpo sem conhecer e saber quando cada mudança de tom de voz quer me deixar uma mensagem, quando cada olhar para o chão me diz que tens vergonha de algo. Insuportável. Insuportável e mesmo assim suportável. Quanta dualidade de sentir.
Laila Naymaer
Vontade Líquida
Uma
taça sobre a mesa, cheia, sem sentido, já não é mais o nosso
vinho. Só é vazio. A umidade no ar, o abafamento parece ser por
dentro. A
outra taça está vazia, ali no lugar que ela geralmente não
gostava. Ela
acende um cigarro e senta. Será essa sua sentença? Nada mais fazia
sentido. Levanta, vai à janela, passa a mão no bocal da taça,
molha a ponta do dedo indicador. Não. O vinho não tem mais o mesmo
gosto. Olha a louça empilhada na pia. Acende outro cigarro e percebe
que aquele vinho não faz mais sentido, nenhum, nem branco, nem
tinto. A outra
taça
ainda está ali. Vazia. A vontade é líquida e o desejo cruel.
Laila Naymaer
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