segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Mito da Caverna




Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.
Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo.

Platão




Extraído do livro "Convite à Filosofia" de Marilena Chauí






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domingo, 1 de abril de 2012

Julgue a mulher que você quiser, mas só depois que viver a vida dela.

          É muito fácil julgar uma mulher segundo, a forma que ela veste-se, observando a maquiagem que ela usa, se caso as cores são fortes, claras ou meio tom. É fácil criticar se ela usa piercing ou tem tatuagem, se usa saia, jeans ou suplex, se é inteligente, bonita ou até gostosa, se é gorda demais, magra demais, feia, cafona, elegante e coisa e tal. Eu quero ver é você, passar pelo que ela passa, sentir os espinhos que ela sente, amar quem ela ama, chorar por quem ela chora, sentir falta dos seus mortos, tantas vezes tão vivos. Eu quero ver você trabalhar com as pessoas que ela trabalha, estudar com quem ela estuda, enfim. Eu quero ver mesmo o seu julgamento, depois que você viver a vida dela.






Laila Naymaer

Desalento

Sim, vai e diz, diz assim 
Que eu chorei, que eu morri de arrependimento 
Que o meu desalento já não tem mais fim 
Vai e diz, diz assim 
Como sou infeliz no meu descaminho 
Diz que estou sozinho 
E sem saber de mim 
Diz que eu estive por pouco 
Diz a ela que estou louco 
Pra perdoar 
Que seja lá como for, por amor 
Por favor é pra ela voltar 
Sim, vai e diz, diz assim 
Que eu rodei, que eu bebi 
Que eu cai, que eu não sei 
Que eu só sei que cansei, enfim 
Dos meus desencontros 
Corre e diz a ela 
Que eu entrego os pontos


Chico Buarque e Vinícius de Moraes






Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinícius de Moraes