terça-feira, 11 de outubro de 2016

Me tornei feminista porque até deus é homem

Por que me tornei feminista

Não sou uma teórica feminista, sou alguém que se tornou feminista pra poder sobreviver. Feminismo pra mim é um modo de vida, foi o que me libertou da vontade de ser qualquer outra coisa, menos eu. Mas demorei muito tempo até conseguir chamar isso de feminismo, por muitas razões. Então o que vou contar aqui é também parte da minha história. Há muitas coisas que gostaria de falar para outras mulheres, na esperança de ajudar alguém como eu fui ajudada.
Às vezes parece que estamos sozinhas e estas coisas só acontecem conosco, mas muito do que passamos é compartilhado.
Acredito que o receio que muitas mulheres têm de se dizer feministas, é também o receio de reconhecer que suas vidas não são assim tão únicas quanto imaginam. Que somos, na verdade, seres moldados para a feminilidade e que esta feminilidade é uma forma de prisão. E é claro que a prisão mais eficaz será aquela que as pessoas prisioneiras puderem pensar que gostam, ou que escolheram.
Há algo que constantemente me pergunto: como fazer as mulheres perceberem que nosso problema não é individual, que nosso sofrimento não é algo meramente pessoal que poderia ser resolvido “no íntimo”?
Conversando com uma amiga, que não entendia porque ainda precisamos de feminismo, apesar de todos os índices de violência contra a mulher e desigualdade de gênero, ela me questionou: mas por que você se tornou feminista?
A resposta a fez perceber que embora eu estivesse falando de mim e das minhas experiências, talvez ela também pudesse se dizer feminista, pois a despeito de todas a nossas diferenças compartilhamos desse mesmo sentimento profundo de inadequação em relação à nossa própria identidade “feminina”.
Então, minhas irmãs, eu vou falar de mim. Mas não se surpreendam se isso as recordar algo, e doer em vocês como dói em mim.
Me tornei feminista porque cresci ouvindo para me comportar como uma mocinha, para sentar de pernas fechadas, para comer de boca fechada, para ficar de boca fechada.
Me tornei feminista porque fui ensinada que todas as brincadeiras divertidas dos meninos seriam para mim perigosas. Por até hoje só saber subir em árvore de maneira desajeitada. Por ter tido todo meu corpo moldado e condicionado aos movimentos comedidos do espaço privado.
Me tornei feminista por andar de cabeça baixa, por ter aprendido a ter medo, por não poder ficar até tarde na rua. Por saber que nenhum espaço seria seguro para mim, pela anatomia do meu corpo ser a anatomia do corpo violável e não do corpo de viola e violenta.
Me tornei feminista pelos abusos que sofri, facilitados pela educação de silêncio, culpa e domesticidade, e assim silenciados toda uma vida junto com a inocência engolida com o bolo que eu ajudava a fazer e até hoje sei a receita.
Me tornei feminista por ter nojo da minha menstruação, do meu corpo, dos meus pelos. Por crescer sentindo que jamais seria bonita o suficiente, e sem isso, eu nada seria.
Me tornei feminista por ter sido educada desde a infância para amar um homem, desejar um homem, depender de um homem para ter minha identidade respeitada, para, finalmente, ser “a mulher de alguém”.
Me tornei feminista por perceber que quase todas as pessoas importantes – que aparecem nos livros e nos jornais, que escrevem os livros e jornais – são homens.
Me tornei feminista porque até deus é homem.
Me tornei feminista pelo sentimento ambíguo de medo, reverência e dependência a tudo que diz respeito ao masculino.
Me tornei feminista por achar que precisava desesperadamente conquistar um homem. Por mutilar meu corpo para isso, por aceitar novas regras dentro do meu mundo de regras.
Me tornei feminista por ter sido ensinada a odiar mulheres, assim como os homens as odeiam, e a vê-las como minhas adversárias no objetivo de adentrar, ainda que subalterna, o mundo dos homens através do passaporte de ser mulher de um homem.
Me tornei feminista por todos os relacionamentos abusivos, pela imposição de um desejo que nunca foi meu. Para poder questionar que desejo é esse que me faz um ser inferior, submisso, subserviente. Que gozo é esse que me simboliza escrava e não deusa.
Me tornei feminista pelos olhos abertos no escuro e a dor no corpo.
Me tornei feminista pelo esforço não recompensado no trabalho. Pela gagueira com o público. Pelo nó na garganta em todas as reuniões a portas fechadas.
Me tornei feminista pelas doenças psicológicas que nenhum remédio curava.
Me tornei feminista pela humilhação de saber que as ruas não me pertencem, que meu corpo é público, é julgável, é tocável. Por saber que tenho que me esconder e, se isso não for o suficiente, tenho que correr. Mas, se isso tampouco for o suficiente, a culpa continua sendo minha.
Me tornei feminista porque os homens são ensinados a odiar mulheres.
Me tornei feminista porque os homens são ensinados a desejar mulheres obsessivamente e a detestar, dominar e corromper o objeto de sua obsessão sexual.
Me tornei feminista porque o feminino, no mundo dos homens, é a Mãe Natureza à disposição da destruição, do abuso, do desrespeito. O ser feito para ofertar terna e eternamente.
Me tornei feminista porque entre puta e santa, entre vadia e mãe, a escolha é entre duas prisões dependentes do masculino.
Me tornei feminista porque sempre fui apenas o outro daquele a quem é permitido ser.
Me tornei feminista porque dizem “nem todos os homens”, mas, sim, é o sofrimento de todas as mulheres.

Fonte:https: //lilaseluta.wordpress.com/2014/08/07/por-que-me-tornei-feminista/

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Y extenuada de sombra, de valor y de frío, cuando quieras dejarme a la orilla del río, me bajarán tus brazos cual conquista de vándalo.

Rebelde

Caronte: yo seré un escándalo en tu barca
Mientras las otras sombras recen, giman o lloren,
Y bajo sus miradas de siniestro patriarca
Las tímidas y tristes, en bajo acento, oren,

Yo iré como una alondra cantando por el río
Y llevaré a tu barca mi perfume salvaje
E irradiaré en las ondas del arroyo sombrío
Como una azul linterna que alumbrara en el viaje.

Por más que tu no quieras, por más guiños siniestros
Que me hagan tus dos ojos, en el terror maestros,
Caronte, yo en tu barca seré como un escándalo.

Y extenuada de sombra, de valor y de frío,
Cuando quieras dejarme a la orilla del río,
Me bajarán tus brazos cual conquista de vándalo.

Juana de Ibarbourou.
Cinco grandes poetas
María Inés Allo Strobach
La República

 

 

 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

É exatamente aí que renasceremos.

Sou eu, hoje sou eu. Eu e meus dilemas. Eu e minhas verdades. Eu e apenas... Eu. Eu esperando o dia em que você consiga ler nas minhas meias palavras, tudo isso, essa imensidão de sentimentos, que se completa nas entrelinhas. Sou eu, aqui, esperando o dia desse acontecimento fatídico, esperando que meu amor seja correspondido. Esperando que você veja os parênteses que meus braços abrem para os seus abraços. Então não direi mais "sou eu", serei eu esperando seus braços para completar nossos parênteses, nossas linhas particulares desse nosso texto desigual. Banal. Sentimental. Carnal. Passional. Substancial. Conceitual. Sem igual. E seremos, apenas seremos na mais profunda simplicidade de fundirmo-nos. Não direi mais "sou eu", diremos então "somos nós". Sorriremos com nossos olhos e olharemos mais profundamente cada poro com nossos lábios, sentiremos cada vez mais forte ao respirar, ouviremos com cada parte dos nossos corpos e dançaremos ofegantemente no ritmo das batidas descompassadas, mas perfeitamente alinhadas, sentiremos cheiros com as línguas e gostos com as narinas. Inebriantemente afundaremos em desejo e é exatamente aí que renasceremos.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Elaborar a suave dor que mata

E no silêncio desse quarto a solidão afoga a sombra da minha tristeza, a saudade corta meus pulsos e o medo aperta meu coração. Sub existo pelo consciente do vazio que tende a elaborar no nada aquilo que me falta. E de tanto elaborar isso que sinto é o que me mata. Elaborar o vazio, escolher ter um coração frio, permanecer oculta no brio?



Laila Naymaer




Sentir Em Dualidade

Eu gostaria muito de ter coragem para te dizer algumas coisas, mas já são dias tão difíceis de olhar nos teus olhos. Fico tentando disfarçar o que simplesmente acredito que tu está em demasiado cansaço de desconfiar... Tua pele me mata, cada pontinho dessa constelação do teu corpo, teu sorriso me amolece inteira, e cada uma das tuas lágrimas contorce meu corpo músculo a músculo, e quando tu me toca é com choques que reagem cada uma das mais diversas terminações nervosas do meu ser. Pode ser que isso mude rápido. Será? Pode esse teu efeito inebriante passar? Ponde a vontade calmar? Pode esse desejo passar? Será mesmo possível?

Que doença. Qualquer música de ritmo um pouco mais envolvente me faz lembrar tua voz de vítima, quase infantil, quando tenta me convencer de algo ou quando pede por favor, essa expressão que vem com açúcar dos teus finos lábios, teu por favor, por favor me faz um pedido especial. Tu sabes... Confessa que sabes... Por favor.

É insuportável conhecer teu corpo sem conhecer e saber quando cada mudança de tom de voz quer me deixar uma mensagem, quando cada olhar para o chão me diz que tens vergonha de algo. Insuportável. Insuportável e mesmo assim suportável. Quanta dualidade de sentir.


Laila Naymaer


Vontade Líquida

Uma taça sobre a mesa, cheia, sem sentido, já não é mais o nosso vinho. Só é vazio. A umidade no ar, o abafamento parece ser por dentro. A outra taça está vazia, ali no lugar que ela geralmente não gostava. Ela acende um cigarro e senta. Será essa sua sentença? Nada mais fazia sentido. Levanta, vai à janela, passa a mão no bocal da taça, molha a ponta do dedo indicador. Não. O vinho não tem mais o mesmo gosto. Olha a louça empilhada na pia. Acende outro cigarro e percebe que aquele vinho não faz mais sentido, nenhum, nem branco, nem tinto. A outra taça ainda está ali. Vazia. A vontade é líquida e o desejo cruel.



Laila Naymaer


terça-feira, 28 de julho de 2015

Das coisas para fazer com você...


      Sinto vontade de te cobrir de beijos e te colocar para dormir no meu colo, mexer no teu cabelo, tirar os teus óculos e colocar na tua mesa de cabeceira, olhar bem no fundo da imensidão dos teus olhos e me encontrar nas tuas profundezas, puxar as cobertas até submergirmos e então ficar te olhando dormir, só isso.

Laila Naymaer





Pra de manhã chegar aos teus segredos

Juro beijar teu corpo sem descanso
Como quem sai sem rumo prá viagem.
Vou te cruzar sem mapa nem bagagem,
Quero inventar a estrada enquanto avanço.

Beijo teus pés, me perco entre teus dedos.
Luzes ao norte, pernas são estradas
Onde meus lábios correm a madrugada
Pra de manhã chegar aos teus segredos.

Como em teus bosques. bebo nos teus rios.
Entre teus montes, vales escondidos.
Faço fogueiras, choro, canto e danço.

Línguas de lua varrem tua nuca.
Línguas de sol percorrem tuas ruas.
Juro beijar teu corpo sem descanso






Composição: Leoni/Moska

terça-feira, 23 de junho de 2015

Só te peço que suma uma vez mais


Ainda não entendo, mas já aceito essa vontade de estar contigo a cada segundo, e essa mística louca de compartilhamos pequenas grandes coisas é algo que alimenta o que existe de ti dentro da vastidão insegura do ser meu.


Tenho desejo de te pedir que suma que esqueça, que brigue, que vá embora, que parta logo antes que piore, mas não consigo. Tento a cada dia, doze horas de cada vez e isso é uma tortura. Doze horas de não conversar, de não ver teu nome na agenda do celular, não ligar, nem atender tua ligação, nem enviar ou responder mensagens, mas é ridículo mesmo, não consigo. 

Laila Naymaer




domingo, 8 de fevereiro de 2015

Por hoje eu só precisava desabafar

Escrevo sim, estou sofrendo, tem gente que não sofre e não está vivendo.
Sofro com as decepções, eu espera que aos vinte e um fosse mudar o mundo. Mas isso eu só quis mesmo lá pelos dezessete ou dezoito, quando eu percebi que a minha vida familiar era um caso perdido, nada melhor que tentar viver fora de casa o que não se tem dentro, não é mesmo?
Realmente, sete anos atrás esperava ser completamente diferente, bem nessa época meus planos nada tinham a ver com política, muito menos com feminismo, eles tilintavam por matemática, história ou mecânica quando eu tinha tempo e ânimo para assistir Fórmula1. Era tudo muito simples e diferente do hoje. Era banal, mas nem ali eu deixava de fugir, de uma forma diferente, minha fuga era me envolver numa falsa simplicidade de pensamento típica das meninas da minha época.
Eu me refugiava nessa tal simplicidade para conseguir lidar com meus dilemas pessoais e familiares, acho que vivi tendo dó de mim, sempre morri de inveja daquelas famílias de propaganda de margarina, ou da família das minhas colegas. Sempre fui rejeitada por todos os garotos que pensava que eu gostava, estava sempre gostando de alguém, buscando alguém que gostasse de mim, que me amasse e que me protege-se. Missão impossível, de tantas rejeições resolvi me abster e tentar ser assexuada o máximo que eu poderia conseguir, quando não conseguia, fazia o possível e impossível para ser platônico e isso deu certo na adolescência, sempre gostei de caras que tinham tudo para dar errado, era meu pretexto para nunca seguir em frente.
No período do ensino fundamental era mais simples me enfiar no quarto ou na biblioteca estudando, passar as tardes inteiras jogando futebol ou vôlei. Quantas vezes eu me fechava para estudar, só saía para jantar ou nem saía e depois sozinha no quarto não querendo ouvir as brigas eu abafava meu choro, mesmo porque nada daquilo que eu chorasse ia mudar aquelas situações. Fossem elas quando eu tivesse cinco, dez ou doze anos. Era o que eu pensava.
Da adolescência eu só lembro que eu escrevia testamentos e cartas de despedida para ver se os meus pais lembravam que eu estava ali, lembro que eu bebia e fumava para ver se eles me enxergavam, minha mãe acabava achando natural, coisas de adolescente dizia ela, eu me achava a pessoa mais fraca do mundo por ainda estar viva. Meu pai de longe sempre tapou o sol com a peneira, desde a minha infância era uma criatura frigida, que poucos sorrisos me trouxe, a farda sempre fez dele o mais forte e gelado pai que a minha infância possa me mostrar. Na pré-adolescência e na adolescência me lembro mais de brigar com ele por telefone quando estava de saco cheio de uma relação superficial de raros finais de semana, telefonemas, ou entregas de notas.
Da quinta séria em diante fui o demônio das professoras, mais do que antes, mas entre a sétima e a oitava série devo ter frequentado no mínimo cinco vezes a sala da direção, tinha crises mexicanas e choro e momentos jesabelicos de ira. Claro que sempre chamavam meu pai ou mandavam bilhetes para a mãe. Ou apanhava, ou ficava de castigo de joelhos com o nariz encostado na parede, contudo em primeiro lugar um sermão chatíssimo, nunca terminado com “faço isso porque te amo”, sempre terminado com “só tenho o estudo para te deixar”. Eu era estranha, ao mesmo tempo em que era um problema, eu escrevia, recitava poemas, cantava, desenhava, dançava, montava coreografias e era uma aluna nota máxima. Acho que até hoje as pessoas daquela escola não devem entender.
Hoje eu olho para traz e compreendo aquela adolescente. Era meu jeito de dizer estou com medo, não me sinto amada, estou sozinha, me ajudem. Ninguém entendeu e eu tive que me criar sozinha, aprender a limpar minhas lágrimas com as minhas mãos, a fazer meus curativos e seguir em frente, afinal ninguém vai resolver nossos problemas por nós. No fim somos como nascemos, choramos nús quando percebemos que estamos no mundo.
Recordo que lá pelos oito ou nove anos, pai e mãe ainda casados, só o via em situações que envolvessem o trabalho dele, peguei nojo da tal farda, principalmente depois do divorcio, eu deveria ter uns dez anos e cinco ou seis meses quando o inferno parecia acabar. É doido ainda pensar na foto da outra filha no berço vestida com a farda dele, preservo  até hoje uma vontade de morrer se penso nisso, justo pela tal farda deixei de ir em uma festa da invernada, depois do divorcio minha mãe não queria nada que envolvesse figura paterna, muito menos me ver vestida de pai, por um lado até foi bom, não tive que passar pelo trauma dele não aparecer mais uma vez. Foi difícil passar anos anteriores ao divorcio dando a desculpa para as minhas professoras que o motivo do meu pai não aparecer na escola era o trabalho dele.
Eu tinha a ilusão que o inferno tinha acabado ali, mas foi depois disso que perdi minha melhor amiga. Fui abandonando meus sonhos, a dança, a declamação, o futebol, a matemática, segui cortando os cabelos, pintando e me enchendo de piercings. Foi deixando das coisas que ela gostava para chamar a atenção e deixando do que eu gostava para agradar que abri as portas para a vida me arrebentar e me tornar isso que sou. Com o passar dos anos, dos namorados dela, dos enteados dela, dos meus dias sozinha, das vezes que cruzei com um cara diferente saindo do quarto dela de madrugada, das minhas crises, das nossas brigas, do meu sentimento de abando que nos perdemos. Nos distanciamos da forma mais horrível possível, nossos erros, nossas incompreensões, algumas inversões de papel, a crise financeira, as minhas rejeições, ela não ir na minha formatura do nível médio, minha vontade de matar ou morrer.
Aos vinte anos me vi novamente como vim ao mundo, nua e chorando, cheia de roupas, mas despida por dentro, em carne viva. Mas aí já é outra história. Porque dois mil e quatorze merece um texto especial, por hoje eu só precisava desabafar. Por hora basta saber que estou tentando ter uma relação com o meu pai, bom acho que ambos estamos tentando. E quanto a minha mãe, também estamos tentando. Ou eu tento ou me arrebento, não é mesmo? A gente sempre se arrebenta de qualquer forma, por culpa dos outros ou nossa.
Sempre acabamos de alguma forma despid@s e chorando.


Laila Naymaer (9 de fevereiro de 2015. 2h26min). 


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Se morremos em tudo o que sentimos e podemos cantar...


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.


Sophia De Mello B. Andresen




terça-feira, 19 de agosto de 2014

Não me prenda nesses dias Frios

Eu não tenho mais certezas...
Eu não tenho mais referências,
Eu não tenho mais garantias.

Eu questiono minhas dúvidas...
Eu removo melancolias,
Eu acumulo as incertezas.

Não me deixe só...
Não me deixe no vazio,
Não me prenda nesses dias frios.

Me faço tão pouco exata...
Me entrego para as complexidades,
Não me rendo para esta forma de realidade.



Laila Naymaer



domingo, 17 de agosto de 2014

Pequenos momentos, grandes experiências...

É tão estranho se sentir acuada, e tem pessoas que parecem ser especialistas em nos fazer sentir assim. Tive alguns dias que durante alguns momentos as coisas aconteceram dessa forma, tiveram uns sorrisos bem gostosinhos de receber, algumas situações que me exigiram sentir como barata, ou com a minha típica petulância juvenil, ou seja, tentando manter o controle mostrando um sorriso desafiador nos lábios e um suor gelado dentro do estômago que vem do tremor de todas as juntas e medulas, mas de qualquer forma foram dias bons. Uns instantes a mais de experiências de amadurecimento.

Fazia realmente muito tempo que não me sentia dependendo de outra ou outras pessoas pra me sentir segura, mas principalmente quando eu não sabia que tipo de posicionamento minha pessoa de referência ia tomar, eu já estava confortável conhecendo outros tipos de posicionamentos. Mas bem confesso que estou aprendendo, inclusive reaprendendo também como é me sentir mais aliviada, porque eu não fazia ideia do que poderia acontecer. Percebi o quanto é importante formar uma equipe para ter respaldo, mesmo que seja uma equipe de duas pessoas naquele momento.

Confesso meu desconforto, confesso que não sou tão preparada quanto eu esperava, é o preço de sempre ter uma pavoa que de alguns anos pra cá me atira em cada coisa, mas me protege tanto, pensei coisas como “se ela estivesse aqui, como seria?” ou “será que ela já teria dado de relho cinicamente nessa criatura?”. Pensei, repensei, pensei mais, e meu Deus, como as coisas mudaram desde que ingressei na faculdade, me pergunto coisas como “que vida é essa que eu não fazia ideia de que ia acontecer?”.

Ando bem emotiva é bem verdade, mas está tudo muito complicado. Ando sentindo que não tem volta, nunca mais vou deixar de ser gente grande. Isso me assusta. Ainda me desperta uma grande curiosidade em saber como é ser adolescente e andar alguns dias na inconsequência, sem preocupações adultas. Sem estresse, sem responsabilidade, sem ter que cozinhar, pagar contas, mas realmente cada vez mais acredito que tão já só me resta ficar na vontade.

Durante a vida tive uma abrupta mudança da infância para a fase adulta. Fez bem em alguns pontos, mas também fez muito mal, parece que fiz muito pouco do que queria fazer, sinto algo como “aproveitei muito mal as poucas experiências que tive”. Não é me vitimar, até porque acho que sou capaz, só não sei o quanto. Parece que as pessoas esquecem a idade que tenho e confiam muito mais em mim do que eu. Afinal, eu não sei bem o que quero da vida, só sei bem o que os outros querem para mim.


Laila Naymaer


Em um rompante...

É estranho parar para pensar como com essa distancia tremenda eu ainda pense em como poderia ser interessante a experiência de deixar-me dominar em algum momento propício, mas tendo que ser exatamente contigo. É muito estranho, é um sentir diferente. Parece uma curiosidade sobre deixar-me ceder um pouco, em algum momento. É peculiar o que me causas.  

Eu que vivi odiando a vida inteira ter limites, sinto que desejo profundamente ser dominada por ti, é como se a tua figura e a tua forma seca de ser e que também se torna doce em eterna contradição e mudança que ocorrem em frações de segundo de alguma forma despertassem algo em mim, é como se todo esse teu jeito intrigante, mas comum de querer ter sempre o controle, é um fato, isso tudo colabora e contribui muito para que tu me atraia de alguma forma que não é comum. E mesmo assim distante, eu permaneço aqui sem ação, mas com essa curiosidade imensa de conhecer as tuas texturas e de ouvir o teu timbre sem interferência ou algo que fique entre nós.

Quando conversamos é como se eu implorasse para que me de limites. Sempre tocamos nos pontos que te incomodam e que divergimos, não sei que tipo de defesa maníaca isso possa ser, ou que tipo de desafio tenho buscado inconscientemente. Toda essa autoridade imposta não tão pacificamente, mas com tamanha propriedade na forma natural de te portar me deixa profundamente desejosa de sair correndo daqui e de alguma forma viajar dez horas só de ida, largar tudo por uns tempos, a faculdade, o trabalho, projetos. Largar tudo e partir. Bater na tua porta completamente molhada num dia de chuva e com os olhos e o sorriso te pedir que me acolhas.



Laila Naymaer  






segunda-feira, 7 de julho de 2014

A problemática repentina do amadurecimento infortúnio



A pior solidão é a que a gente sente entre os sorrisos, essa que nos faz nos faz sentir uma pessoa vazia de si mesmo, que causa essa anngustia que não passa, essa tristeza que não muda, essa dor que  não acaba. Essa solidão que faz sentir forte o desamparo e que também nos faz sentir falta de cuidado.

Solidão e Situação andam juntas, mas não se entendem. Fazem a gente cuidar de outra pessoa quando a coisa que mais se deseja no mundo é ser cuidada.

A Solidão faz a gente ter atitudes que mostram um desespero silencioso. Aquele sofrimento nos olhos ao mesmo tempo em que se leva nos lábios um sorriso (resfriado).

A Situação vive querendo fazer a gente esquecer a Solidão... Como se fosse simples a tarefa de tirar dos pensamentos o que sufoca o corpo, que engasga na garganta.

Somos tudo. Tudo menos o que queremos ser, o que silenciosamente imploramos para gritar.
Somos nada. Nada além do que precisamos ser, somos o que os outros precisam ver.



Laila Naymaer


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Maternidade: volume I



Tem sido uma discussão recorrente na minha vida. Não sei se é pela década dos vinte que se faz agora residente em mim ou se é meramente por uma pressão familiar. Mas é tão difícil me ver preparando outra pessoa, e se engana quem acha que essa pessoa é preparada só na barriga. Esses questionamentos sinceramente me deixam em uma situação incomoda. O tempo não para. Ele não para e a gente envelhece, talvez até amadureça, mas isso tudo compõe uma longa e complexa caminhada.

Mas o que me deixa meio triste é essa obrigação social da mulher ter que engravidar. Uns chamam de obrigação teológica, outras pessoas chamam de obrigação biológica, mas para mim simplesmente não é uma obrigação, tampouco plano para breve. Hoje me encontro bem mais preocupada comigo mesmo. A vida me tirou tantas coisas, outras eu não tive peito suficiente pra enfrentar a minha família, não é justo que eu não lute por oportunidades de ser feliz. É bem mais legal e consciente que eu me trate e resolva alguns conflitos primeiro, antes de uma decisão sem volta chamada maternidade. Não desejo um filho ou filha para usar como fio terra e descarregar meus problemas ali.

Não é justo para mim e para qualquer outra mulher ser condenada por não ter esse desejo, mas desejo é algo muito relativo, é algo que acontece com o tempo, o desejo de ser mãe não é um estalo como a excitação. Não nascemos com desejo de ter um carro, uma casa, de ter um namorado, um marido, um casamento, ou um lar, filhos e/ou filhas. Tudo é com o tempo e há tempo para todas as coisas, até tempo para não querer as coisas. A sociedade nos impõe todas essas coisas, meio que “goela a baixo”, mas não vê a felicidade da mulher também na realização própria, na verdade até vê só não admite. Afinal mulheres realizadas são bem mais difíceis de serem domadas.

As pessoas ficam falando o quão egoísta é uma mulher que não deseja ter filhos, o quanto ela é egocêntrica, o quanto ela não deseja abandonar o papel de ser filha, o quanto ela não amadureceu e se nega a isso, mas essas pessoas não se importam com o quanto talvez ela não tenha sido filha e tenha precisado amadurecer muito rápido com tudo que lhe foi imposto. Isso aqui é sobre eu mesmo, mas também é sobre tantas outras mulheres. Isso aqui é sobre todas as pessoas que antes de ter que cuidar de alguém queiram simplesmente ser cuidadas.

Eu acredito na família e que isso possa dar certo, mas isso é algo que as pessoas precisam querer. Esses discursos tem me entediado, principalmente pelo fato das pessoas mal assinaram um papel e as perguntas imbecis e pressionadoras começam, e elas sempre sobre quando eles vão decidir ser uma família. Família pode ser dois. Quão difícil é para as pessoas saírem do senso comum e entenderem isso? As pessoas têm por construção fajuta, mas incutida pela sociedade o objetivo de buscar a própria felicidade em outras pessoas, mas se esquecem que as decisões tem que ser tomadas por elas próprias. Mas mais do que as perguntas para os casais o que gasta a minha paciência é essa cobrança sobre mulheres solteiras. As pessoas fazem as decisões femininas parecerem delinquências. Ficar um tempo só é tão bom, a gente acaba se conhecendo, descobrindo limites e particularidades, coisas a amadurecer antes de querer ter uma família.

Algumas famílias tem dado tão errado que fico pensando se sinceramente essas pessoas queriam aquilo, essa coisa de “família”. Às vezes é só esse contrato social entre duas pessoas que nem sabem direito porque estão fazendo isso e jogam as responsabilidades com tamanha inconsequência e ficam procriando porque a sociedade cobra isso. E depois os problemas que chegam com a maternidade são todos culpa da mulher. Já não bastasse as dores, as marcas e o corpo esticado, ainda tudo que acontece de ruim na criação desses filhos e filhas é culpa da mãe, a figura paterna muitas vezes incompetente, omissa e manipulável praticamente não é levada em conta. Sinceramente eu morro de medo de tudo isso.

Acredito que para uma mulher é tudo dez vezes pior. No entanto eu creio que decidir que não quer ter filhos possa ser uma decisão nada egoísta, pelo completo contrário, pode ser uma assinatura positiva na confirmação do reconhecimento sobre o sentimento de despreparo. As consequências de uma pessoa não suprida, sem uma criação razoável são tantas, que passe bem longe de mim o sentimento de culpa por criar uma pessoa transtornada, mal criada, traumatizada e sofrida. Tem tanta gente aí sem limites, sem amor, cheia de feridas e causando problemas que mais gente assim não precisa. Francamente.

Não querer hoje ou não querer nunca pode ser a decisão mais acertada na vida de uma pessoa. O engraçado é que se um homem não quer ter filhos e/ou filhas dificilmente alguém vai ficar insistentemente questionando ou entupindo de estereótipos, muito menos os pais vão ficar cuspindo a frustração por não terem netos. Claro que talvez em alguns casos isso aconteça, mas com muito menor frequência do que em relação as mulheres, e o que as pessoas se valem muitas vezes é do velho argumento “mulheres tem prazo de validade”. Validade o caramba, a mulher não vale apenas seus óvulos, e o resto não vale nada?

Dizemos-nos fruto de uma sociedade tão moderna, mas sinceramente tão retrógada em muitas coisas. Esse instinto materno mítico e o amor materno tão inventado geram tantas cobranças para mentes que vivem num mundo com tantas outras possibilidades e objetivos que de nenhuma forma impedem a maternidade, mas na hora certa. Sem cobranças, sem pressões.


Laila Naymaer



domingo, 8 de junho de 2014

Seja minha desordem

Acho que me refugiei em desejar-te para tentar me libertar, talvez para me sentir viva ou capaz de sentir depois de tanto tempo. Querer o que não posso ter e assim movimentar uma ilusão que inconscientemente possa me levar a transgredir meu estado de crença e acomodação.

Talvez o que me fascine seja a possibilidade de transgredir essa vida pateticamente perfeitinha. A possibilidade de ter prazer e me culpar por ele me faz ter um estranho sorriso nos lábios. Essa identificação de desejar essa imoralidade que te hospeda, pode ser que isso demonstre o meu desejo de outrora que foi reprimido, sublimado e potencializado, mas ainda um desejo de viver um momento nessas sombras, nesses vãos entre os prédios, nesses becos escondidos.

Há uma possibilidade tão grande sob a névoa do inaceitável, no ato de entrar nesse mundo, conhecê-lo e logo depois voltar a realidade. É essa a possibilidade que teu sorriso representa para mim, esse prazer reprovável, um instante de conhecimento, e tão já o momento terminado e conhecido usá-lo na vida cotidiana, sem precisar ter-te sempre.

É esse o teu símbolo, um livro com receitas que impulsionem o desejo que por vezes foi só e tão somente abafado. Provavelmente seja por isso que tenho me encontrado tão frágil, mas ao mesmo tempo essa sensação de impotência sobre o desejo me deixa tão incomodada.

Torna-se tão estranha a indagação de cogitar a possibilidade de me abrir para outras situações, mas também de por alguns instantes completar o que me falta e me sujeitar, no entanto desta vez eu despida do misticismo, deixando do lado de fora as pedras de alquimia, e depois retornando.


Sendo as coisas muito loucas, buscando eu uma dominação (mesmo que momentânea) que me liberte. Seja minha desordem... 



Laila Naymaer