segunda-feira, 23 de junho de 2014

Maternidade: volume I



Tem sido uma discussão recorrente na minha vida. Não sei se é pela década dos vinte que se faz agora residente em mim ou se é meramente por uma pressão familiar. Mas é tão difícil me ver preparando outra pessoa, e se engana quem acha que essa pessoa é preparada só na barriga. Esses questionamentos sinceramente me deixam em uma situação incomoda. O tempo não para. Ele não para e a gente envelhece, talvez até amadureça, mas isso tudo compõe uma longa e complexa caminhada.

Mas o que me deixa meio triste é essa obrigação social da mulher ter que engravidar. Uns chamam de obrigação teológica, outras pessoas chamam de obrigação biológica, mas para mim simplesmente não é uma obrigação, tampouco plano para breve. Hoje me encontro bem mais preocupada comigo mesmo. A vida me tirou tantas coisas, outras eu não tive peito suficiente pra enfrentar a minha família, não é justo que eu não lute por oportunidades de ser feliz. É bem mais legal e consciente que eu me trate e resolva alguns conflitos primeiro, antes de uma decisão sem volta chamada maternidade. Não desejo um filho ou filha para usar como fio terra e descarregar meus problemas ali.

Não é justo para mim e para qualquer outra mulher ser condenada por não ter esse desejo, mas desejo é algo muito relativo, é algo que acontece com o tempo, o desejo de ser mãe não é um estalo como a excitação. Não nascemos com desejo de ter um carro, uma casa, de ter um namorado, um marido, um casamento, ou um lar, filhos e/ou filhas. Tudo é com o tempo e há tempo para todas as coisas, até tempo para não querer as coisas. A sociedade nos impõe todas essas coisas, meio que “goela a baixo”, mas não vê a felicidade da mulher também na realização própria, na verdade até vê só não admite. Afinal mulheres realizadas são bem mais difíceis de serem domadas.

As pessoas ficam falando o quão egoísta é uma mulher que não deseja ter filhos, o quanto ela é egocêntrica, o quanto ela não deseja abandonar o papel de ser filha, o quanto ela não amadureceu e se nega a isso, mas essas pessoas não se importam com o quanto talvez ela não tenha sido filha e tenha precisado amadurecer muito rápido com tudo que lhe foi imposto. Isso aqui é sobre eu mesmo, mas também é sobre tantas outras mulheres. Isso aqui é sobre todas as pessoas que antes de ter que cuidar de alguém queiram simplesmente ser cuidadas.

Eu acredito na família e que isso possa dar certo, mas isso é algo que as pessoas precisam querer. Esses discursos tem me entediado, principalmente pelo fato das pessoas mal assinaram um papel e as perguntas imbecis e pressionadoras começam, e elas sempre sobre quando eles vão decidir ser uma família. Família pode ser dois. Quão difícil é para as pessoas saírem do senso comum e entenderem isso? As pessoas têm por construção fajuta, mas incutida pela sociedade o objetivo de buscar a própria felicidade em outras pessoas, mas se esquecem que as decisões tem que ser tomadas por elas próprias. Mas mais do que as perguntas para os casais o que gasta a minha paciência é essa cobrança sobre mulheres solteiras. As pessoas fazem as decisões femininas parecerem delinquências. Ficar um tempo só é tão bom, a gente acaba se conhecendo, descobrindo limites e particularidades, coisas a amadurecer antes de querer ter uma família.

Algumas famílias tem dado tão errado que fico pensando se sinceramente essas pessoas queriam aquilo, essa coisa de “família”. Às vezes é só esse contrato social entre duas pessoas que nem sabem direito porque estão fazendo isso e jogam as responsabilidades com tamanha inconsequência e ficam procriando porque a sociedade cobra isso. E depois os problemas que chegam com a maternidade são todos culpa da mulher. Já não bastasse as dores, as marcas e o corpo esticado, ainda tudo que acontece de ruim na criação desses filhos e filhas é culpa da mãe, a figura paterna muitas vezes incompetente, omissa e manipulável praticamente não é levada em conta. Sinceramente eu morro de medo de tudo isso.

Acredito que para uma mulher é tudo dez vezes pior. No entanto eu creio que decidir que não quer ter filhos possa ser uma decisão nada egoísta, pelo completo contrário, pode ser uma assinatura positiva na confirmação do reconhecimento sobre o sentimento de despreparo. As consequências de uma pessoa não suprida, sem uma criação razoável são tantas, que passe bem longe de mim o sentimento de culpa por criar uma pessoa transtornada, mal criada, traumatizada e sofrida. Tem tanta gente aí sem limites, sem amor, cheia de feridas e causando problemas que mais gente assim não precisa. Francamente.

Não querer hoje ou não querer nunca pode ser a decisão mais acertada na vida de uma pessoa. O engraçado é que se um homem não quer ter filhos e/ou filhas dificilmente alguém vai ficar insistentemente questionando ou entupindo de estereótipos, muito menos os pais vão ficar cuspindo a frustração por não terem netos. Claro que talvez em alguns casos isso aconteça, mas com muito menor frequência do que em relação as mulheres, e o que as pessoas se valem muitas vezes é do velho argumento “mulheres tem prazo de validade”. Validade o caramba, a mulher não vale apenas seus óvulos, e o resto não vale nada?

Dizemos-nos fruto de uma sociedade tão moderna, mas sinceramente tão retrógada em muitas coisas. Esse instinto materno mítico e o amor materno tão inventado geram tantas cobranças para mentes que vivem num mundo com tantas outras possibilidades e objetivos que de nenhuma forma impedem a maternidade, mas na hora certa. Sem cobranças, sem pressões.


Laila Naymaer



domingo, 8 de junho de 2014

Seja minha desordem

Acho que me refugiei em desejar-te para tentar me libertar, talvez para me sentir viva ou capaz de sentir depois de tanto tempo. Querer o que não posso ter e assim movimentar uma ilusão que inconscientemente possa me levar a transgredir meu estado de crença e acomodação.

Talvez o que me fascine seja a possibilidade de transgredir essa vida pateticamente perfeitinha. A possibilidade de ter prazer e me culpar por ele me faz ter um estranho sorriso nos lábios. Essa identificação de desejar essa imoralidade que te hospeda, pode ser que isso demonstre o meu desejo de outrora que foi reprimido, sublimado e potencializado, mas ainda um desejo de viver um momento nessas sombras, nesses vãos entre os prédios, nesses becos escondidos.

Há uma possibilidade tão grande sob a névoa do inaceitável, no ato de entrar nesse mundo, conhecê-lo e logo depois voltar a realidade. É essa a possibilidade que teu sorriso representa para mim, esse prazer reprovável, um instante de conhecimento, e tão já o momento terminado e conhecido usá-lo na vida cotidiana, sem precisar ter-te sempre.

É esse o teu símbolo, um livro com receitas que impulsionem o desejo que por vezes foi só e tão somente abafado. Provavelmente seja por isso que tenho me encontrado tão frágil, mas ao mesmo tempo essa sensação de impotência sobre o desejo me deixa tão incomodada.

Torna-se tão estranha a indagação de cogitar a possibilidade de me abrir para outras situações, mas também de por alguns instantes completar o que me falta e me sujeitar, no entanto desta vez eu despida do misticismo, deixando do lado de fora as pedras de alquimia, e depois retornando.


Sendo as coisas muito loucas, buscando eu uma dominação (mesmo que momentânea) que me liberte. Seja minha desordem... 



Laila Naymaer



domingo, 1 de junho de 2014

Foucaultiada de domingo...

Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la.

Michel Foucault